Recirculação em AII: o mito que até o mercado repete é a confusão mais comum sobre recirculação de ar em ambientes hospitalares. Existem dois mitos opostos: um grupo acha que hospital nunca pode recircular ar, outro acha que pode recircular como um prédio comercial qualquer. Os dois estão errados.
Este artigo explica a regra base que vale para todo ar recirculado, quando a recirculação entre ambientes é permitida, e o caso mais mal-entendido de todos: o ambiente de isolamento de infecções por aerossóis, o AII.
Se preferir, você pode assistir a explicação completa em vídeo aqui embaixo.
Recirculação não é decisão binária: os dois mitos que o mercado repete
Recirculação de ar em hospital não é uma decisão de sim ou não. É uma decisão condicionada, que depende do nível de risco do ambiente, da zona funcional dele, e do tipo de contaminante envolvido.
Quem acha que hospital nunca recircula ar está errado. Quem acha que pode recircular igual prédio comercial também está errado. A norma não trabalha com regra genérica aqui, ela trabalha com critério.
A regra base: todo ar recirculado é filtrado junto com o exterior
Antes de falar em quando pode ou não pode, existe uma regra que vale para todo ar recirculado, sem exceção: ele precisa ser filtrado junto com o ar exterior, na mesma cadeia de filtragem, seguindo a classe que a Tabela A exige para aquele ambiente e as instruções da NBR 16401-3.
Não é filtragem separada, não é filtragem em paralelo. O ar de retorno e o ar exterior entram no condicionador pelo mesmo ponto de mistura, e passam pela mesma caixa de filtro antes de chegar no ambiente. Essa regra sozinha já elimina boa parte do medo genérico de recircular ar em hospital: o ar recirculado não volta sujo, ele volta filtrado do mesmo jeito que o ar novo.
Quando a recirculação é permitida entre ambientes
A recirculação entre ambientes só é permitida quando o ar vem do próprio ambiente, ou de ambientes do mesmo nível de risco, pertencentes à mesma zona funcional. Os dois critérios precisam bater juntos.
Dois ambientes AA de risco nível um podem compartilhar retorno se forem da mesma área clínica. Um quarto individual e uma enfermaria, os dois AO de risco nível dois, da mesma ala de internação, também podem. Já um AO de risco dois da ala de internação e um AO de risco dois de uma área de apoio técnico não satisfazem a condição, mesmo com tipo e nível de risco iguais, porque são zonas funcionais diferentes. A zona funcional é definida pela função clínica e pelo setor, não só pelo número de risco.
Existe ainda um terceiro filtro, separado desse: ar contaminado por vapor nocivo, material radioativo ou biológico não pode ser recirculado de jeito nenhum, precisa de exaustão mecânica total, o ar de expurgo. Isso não depende de zona funcional nem de nível de risco, é o tipo de contaminante que decide.
Recirculação em AII: a exceção que o mercado lê errado
A norma exclui o AII da regra de compartilhamento entre ambientes. Ele não entra no grupo que pode dividir recirculação com outro ambiente do mesmo nível de risco e da mesma zona funcional, mesmo se esse outro ambiente também fosse AII.
É exatamente aqui que muita gente lê rápido demais e conclui que o AII não recircula ar nenhum, nunca. Não é isso que a norma diz. O que ela proíbe é o compartilhamento, a recirculação que sai do AII e vai para o sistema misturar com o ar de outro ambiente.
Recirculação local, dedicada só ao próprio AII, com o ar passando por filtro de alta eficiência antes de voltar para o mesmo quarto, é uma configuração que a norma documenta como válida. Ela aparece na Tabela A.2 da NBR 7256, na linha do quarto AII com recirculação, e nas figuras do Anexo C. A diferença entre os dois é a fronteira que separa o mito do critério real: AII não compartilha, mas AII pode ter recirculação, desde que fique dentro do próprio ambiente e passe pelo filtro exigido.
Em resumo
- Recirculação de ar em hospital não é decisão binária: depende do nível de risco, da zona funcional e do tipo de contaminante.
- Todo ar recirculado precisa ser filtrado junto com o ar exterior, na mesma cadeia de filtragem, sem exceção.
- Entre ambientes, a recirculação só é permitida com mesmo nível de risco e mesma zona funcional, os dois critérios juntos.
- Ar contaminado por vapor nocivo, material radioativo ou biológico nunca recircula, vira exaustão total.
- O AII não pode compartilhar recirculação com outro ambiente, mas pode ter recirculação local, dentro do próprio quarto, com o filtro certo, conforme a Tabela A.2 e o Anexo C.
Esse tipo de critério, que separa o mito da regra real, é o que sustenta o Módulo 3 do Projetista HVAC Hospitalar Avançado, o módulo de movimentação de ar. O curso aprofunda esse critério com o balanço de ar completo, direto na norma.

Eng. Ronaldo Ribeiro